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A arapuca dos negacionistas

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 Por Leandro Pessoa Em um inquérito policial, a verdade foi chamada para depor. Após horas de questionamentos a verdade não teve outra escolha a não ser ocultar-se. Não revelou muita coisa. Na verdade, não revelou nada. Os agentes, assim, fizeram o que seu nome sugere: agiram. Com métodos nada ortodoxos perguntaram quem era seu dono.   A verdade respondeu após a tortura que ninguém possuía sua tutela. Aniquilaram a verdade. E em seu lugar colocaram uma imitação barata para se passar por ela, um clone.     A verdade não é apenas uma palavra que esta sendo maltratada. Ela está sendo sepultada. A verdade é definida pelos processos de conhecer e investigar. Entretanto, hoje, o imperativo da verdade não é outra coisa senão a negação radical da realidade. A verdade está sendo definida pela ameaça, pela força bruta. Não é uma história nova. Nosso país foi edificado negando a violência contra o seu povo, negando o racismo, negando a tortura, negando as suas raízes. Se antes a elite brasileir

Quem são seus influencers?

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 Por Leo Pessoa Meus principais influenciadores são meus familiares, amigos e suas influências normalmente acontecem em encontros presenciais. Contarei duas histórias para confirmar essa afirmação. A primeira aconteceu em Fevereiro deste ano quando estive em uma celebração de aniversário e encontrei alguns amigos. Nas conversas sobre o mundo tecnológico atual, um amigo me indicou o livro Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política, escrito pelo bielorruso Evgeny Morozov. Adquiri a obra e me identifiquei muito com as ideias sobre os reais impactos da tecnologia em nossas vidas nos âmbitos cultural, social, econômico e comportamental. Não irei aqui fazer uma resenha sobre o livro, mas uma das coisas mais contundentes que Morozov aborda é sobre o fato de sermos produtos do atual domínio feudal que as quatro principais empresas de tecnologia do mundo, a saber : Google, Facebook, Apple e Amazon nos condiciona e como elas loteiam alguns dos mais valiosos momentos de nossas vi

A habilidade para responder: sobre o retorno da Escola

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Reprodução UOL Por Leo Pessoa A palavra responsabilidade, em sua etimologia e sentido significa a habilidade para responder por nossas próprias ações, pelas ações dos outros e por coisas que nos são confiadas. Na vida em comunidade e democrática as responsabilidades são diferenciadas, mas todos temos responsabilidades nas ações que envolvem a vida coletiva.   Em uma democracia representativa um presidente possui uma responsabilidade maior porque suas ações possuem impactos materiais e simbólicos na vida das pessoas. Crises econômicas, sanitárias, morais, ambientais, dentre outras, devem ser conduzidas pelo poder executivo em suas emergências. No Brasil a ausência de respostas do presidente está escancarada, apesar da última pesquisa do Datafolha indicar o contrário na opinião pública nacional. Em uma regulação política de nossos problemas, começamos a inverter os papéis e a cobrar mais responsabilidades de quem, em uma emergência, possui responsabilidades, mas sem dúvidas, não são

O outro, esse inferno!

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Imagem por https://www.flickr.com/people/69061470@N05 - https://www.flickr.com/photos/government_press_office/6470403371/, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=37461801     Por Leo Pessoa      Em uma entrevista a Sean Penn, Charles Bukowski disse uma celebre frase que é replicada aos quatro cantos: “ Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar .” Nossa experiência de mundo é o fundamento básico daquilo que pensamos, dizemos, teorizamos. Por isso, eu posso dizer para Old Buk: você nunca viveu uma pandemia.             Não resta dúvida. Num futuro não muito distante haverá um tipo de pergunta que será mais um dos indicadores do acúmulo de experiências de vida. Questionamentos do tipo: " você já viajou para quantos países? " ou " quantos filhos você criou ?" ou ainda " quais livros você já leu? " e " por quantos períodos de guerra você já passou? " terão companhia d

Negro eu sou, índio eu sou, diz aí quem é você

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             Mainha e painho no dia do casamento deles, em 1978 Por Leo Pessoa      Em Março de 2015, uma camisetaria de Juiz de Fora, Minas Gerais, me convidou para participar de uma campanha publicitária para o dia do consumidor. A peça tinha como objetivo, além de aumentar as vendas, estabelecer um nome específico ao consumidor da camisetaria. O slogan da peça era Não ao dia do consumidor . Baseado nas minhas fotos do Facebook eles fizeram uma arte. Nessa arte havia uma imagem que me representava. Quando observei a arte, fiquei uma tanto quanto chocado. Estava representado como negro.   Arte da camisetaria             Apesar de, desde sempre, ter sido chamado de moreno, até então, em nenhum momento da minha vida, havia me enxergado como negro. Mantive contato com as pessoas que criaram a arte e elas eram brancas.  Na infância quando criança era como o xamêgo da música de Luiz Gonzaga: ninguém sabe se ele é branco, se é mulato ou negro. As minhas primeiras reflexões sobre ident

Meio urbano, consumo e trabalho: uma caminhada na penumbra do novo e da rejeição ao normal*

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A luz realça as cores de tudo o que vive e desbota o que não é animado. O sol acende os vivos e apaga os mortos. José Eduardo Agualusa   Vida sem utopia Não entendo que exista Caetano Veloso Por Leo Pessoa * texto elaborado para a palestra proferida no V Encontro Meio Ambiente em Discussão promovido pelo Ifbaiano Guanambi           Em uma entrevista ao El País , o cineasta estadunidense Spike Lee definiu, através de uma alusão bíblica cristã, que o mundo será dividido em AC/DC (Antes do Coronavírus/ Depois do Coronavírus). Se para os cristãos existe um evento, pontual no tempo e localizado no espaço, definidor e alterador dos rumos da humanidade em antes e depois, dois mil e vinte anos depois, esse evento que pode definir e alterar nossos rumos não está sendo tão pontual no tempo, já dura dezenas de semanas, e é globalizado no espaço, estamos falando da pandemia da Covid-19.               O antropólogo Tim Ingold dedicou um livro inteiro para entender o que   é estar

Das coisas que aprendi nos discos

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   Por Leo Pessoa     Em Maio do ano passado, participei de um concurso para o Magistério Docente da Universidade Federal da Bahia. Fui aprovado na prova escrita, mas fiz, por vários motivos, uma prova didática pífia e não obtive classificação. Na etapa da defesa do memorial, afirmei que após o término do Doutorado, ocorrido seis meses antes, havia dedicado um tantinho do meu tempo a ler obras, teóricas ou literárias, que contribuíssem para entender meu país e o mundo em que vivo.   Na leitura do resultado do concurso, a banca disse que a minha fala sobre a leitura das obras foi evasiva e sem relação com o concurso. A área do certame era Geografia Regional e a leitura de obras de autores de vários cantos do Brasil, da Nigéria, da Noruega, da Coréia do Sul, do Canadá foi considerado uma circunstância menor de meu argumento que não deveria estar ali. Desde então, desencanei com a vida acadêmica e decidi dar continuidade à minha formação nessa tentativa, que talvez nunca seja concluíd